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A história de Paulinha Caetano
Isso não é mais um texto sobre o câncer
Por: iFox/Micael Machado (micaelaraujomachado@gmail.com)
Segundo o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da SilvaINCA –, estima-se que o câncer de mama é o câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil. Isso corresponde a cerca de 28% de casos novos a cada ano.

Com incidência predominante em mulheres, infelizmente o câncer de mama é evidenciado somente em uma data: o outubro rosa. Não desmerecendo a campanha que é muito importante, iFox enfatiza o que ao menos, boa parte das mulheres entrevistadas ressaltam.

Antes de mais nada, esse texto não é mais um texto sobre o câncer, nem tem o intuito de fazer uma propaganda de prevenção, mas se servir para isso, não há problemas. O foco está em pensar nos sentimentos vividos por mulheres com câncer de mama desde o processo de adoecimentos até as mudanças advindas dessa nova realidade.

Diante disso, pode-se dizer que o câncer de mama é uma doença diferenciada pois, além das mudanças físicas como a dor e as mutilações, tem o impacto psicológico que resulta em inúmeros sentimentos, com várias intensidades e naturezas. 

É preciso compreender que antes de qualquer coisa, os seios possuem simbologias e isso é visto em diferentes culturas. São os órgãos da amamentação, símbolos de feminilidade e, ao mesmo tempo, fonte de inspiração nas artes. Representados em suas nuances desde a sexualidade e o prazer e, em público, ousadia, protesto ou até estratégia de marketing.

A história de Ana Paula Caetano ou melhor, Paulinha Caetano, prova a todos que apesar dos sentimentos como o medo, a angústia e a ansiedade, nem tudo está perdido. O momento em que o diagnóstico é realizado por conta de ser quase sempre associado com a morte, é mais difícil do que se pensa e as mudanças na vida bem como cotidiano da mulher, são marcantes.
Paulinha Caetano (Foto: Acervo Familiar)

“Quando minha filha Samira completou um ano, comecei a perceber que meus mamilos estavam com feridas, mas em nenhum momento achei que era câncer”, disse Paulinha Caetano, que atualmente está com 42 anos. A arroio-grandense, relembra a sua história e a notícia do que viria a ser um grande divisor de águas em sua vida, após realizar muitos exames.

Diagnosticada com um tipo de câncer denominado carcinoma – um tumor maligno que é desenvolvido a partir de células epiteliais –, se viu perdida. Em um primeiro momento não contou para o marido pelo fato de o casamento estar em crise e logo após contar, foi abandonada.

A luta de Paulinha Caetano se assemelha a de inúmeras outras mulheres que, diante da doença, não sabem como reagir. A vivência do diagnóstico confronta com uma série de eventos estressores. Tais eventos são compatíveis com o enfrentamento de uma doença que ameaça à integridade física, exigindo cuidados intensivos. 

A mulher quando acometida, não tem apenas o seu corpo modificado, mas também, a imagem de si distorcida em diversos aspectos da sua vida social e afetiva. A feminilidade, por exemplo, é comprometida com a perda de cabelo e, principalmente, com a retirada da mama.

 “Eu precisava me tratar, fazer uma mastectomia total das duas mamas, na época, emagreci muito e foi aí que começou a mutilação”, disse Paulinha Caetano. A despeito de sentimentos de desespero e tristeza seguida de choro, relatadas pela maioria das mulheres, há também quem demostra atitudes positivas de enfrentamento da doença.

Quem enxerga Paulinha Caetano, vaidosa, em seu salto de 15 centímetros, sempre sorrindo, fica impressionado com tais atitudes. Diante de uma nova vida, a entrevista retornou para sua cidade natal, Arroio Grande, situada no Rio Grande do Sul e o apoio do pai e suas duas filhas foi crucial.

A luta não parou em nenhum momento e para bancar o tratamento, realizado na cidade de Pelotas, também situada no Rio Grande do Sul, Paulinha, apesar das dores físicas e emocionais, não desistiu. Foi aí que algo improvável aconteceu, virou servente de pedreiro e pintora.
                                      Paulinha Caetano trabalhando como pedreira e pintora (Foto: Acervo Familiar)

                                      Paulinha Caetano trabalhando como pedreira e pintora (Foto: Acervo Familiar)

“A dor da perda, a separação drástica e a doença, não me impediram de nada, eu queria viver cada vez mais e ficar com as minhas filhas”, relatou a entrevistada que emocionada completou “essa luta é minha, meu julgo e não vou desistir”. O cônjuge, os filhos e os pais são de suma importância ao longo do tratamento e são as pessoas que, normalmente, sofrem e passam por momentos de muita angústia, além de ser as pessoas mais importantes, que têm implicações diretas no tratamento.

O ponto de partida principal no momento difícil, para muitas é a família que também é o sustentáculo emocional, tornando-se o suporte que dá estímulo e força. Paulinha, com os olhos marejados e sorrindo, lembra o quão importante foi o seu pai, Jorge Ademir Caetano, de 63 anos e suas filhas, Grayce Caetano Gonçalves, de 20 anos e Samira Caetano de Melo, de 12 anos.
                       Paulinha Caetano com as filhas Grayce Caetano Gonçalves e Samira Caetano de Melo (Foto: Acervo Familiar)

“Quando fiquei muito mal, já estava anoréxica e cheia de sequelas, meus rins pararam e comecei a fazer hemodiálise, ficando meses na UTI”, relembrou a entrevistada que sempre se mostrou confiante reafirmando que iria vencer e voltar para casa.

No momento em que a palavra “câncer” é dita, seguida de palavras como “tratamento” e “radioterapia”, o susto é grande e além da família, durante o período que corresponde desde o diagnóstico ao tratamento e a cura, os profissionais da saúde são importantes. Esses, desenvolvendo inúmeros papéis como cuidadores e educadores, auxiliando nos momentos de ressignificações de valores e sentimentos negativos. 

Paulinha se refere a todos os profissionais que cuidaram e cuidam dela como “anjos de jaleco” e ressalta o papel de ouvintes e orientadores, sempre dispostos a desmistificar de forma clara os seus medos e suas dúvidas. Aliados da família, ajudaram a se reerguer sorrindo e acreditando na recuperação.

“Uma das minhas maiores dificuldades foi o bullying que vi minha filha menor sofrer na escola, me envergonhava da minha aparência, não queria deixa-la constrangida”, contou a entrevistada ao ser questionada sobre uma das dificuldades enfrentadas no tratamento. Samira Caetano de Melo, a filha menor, no entanto, sempre fitando a mãe, relatou sobre uma festinha na escola de dia das mães a qual ficou emocionada ao enxergar a mãe na plateia.
                                     Paulinha Caetano com a filha mais nova, Samira Caetano de Melo (Foto: Acervo iFox)

Paulinha, disse que suas filhas sempre a apoiaram, mas, a filha menor, nunca saiu de perto e que merecia ser homenageada. Isso tudo pôde ser visto em um vídeo ao qual na apresentação citada acima, a mãe diante da escola, disse que Samira, desempenhou muitas vezes o papel de mãe.

Samira Caetano de Melo, de apenas 12 anos relatou que ao lembrar da mãe, a palavra que vem à sua cabeça é “guerreira” e que um dos maiores legados deixado pela sua mãe é: nunca desistir de lutar de seus sonhos pois um dia, poderá alcança-los, através da luta.

Outra dificuldade, se refere à estética, a ausência de cabelo e principalmente da mama, evidencia o seu significado para a mulher. Diante disso, o sentimento de incompletude e rejeição são elencados como presentes no dia-a-dia dessas mulheres. Para Paulinha não foi diferente, se despedir dos longos cabelos loiros e dos seios foi dificultoso, porém, a vontade de viver saudável sempre se sobressaia. 

Um grande “anjo”, referente à reconstrução do amor próprio foi a tatuadora, Hermana Rodrigues que a convidou para compor um projeto denominado “modelo de maio”. Apesar de ter feito a reconstrução mamária, Paulinha disse que ficou com cicatrizes horríveis mas participar do ensaio a fez se ver de outra forma.

Após o primeiro ensaio, estampou algumas páginas do livro do fotógrafo Fernando Duran. Relembrando o ensaio, Paulinha ainda relata que diante do convite questionou a escolha do fotógrafo e escutou: “enxergo a sua beleza de uma maneira única”. E não parou por aí, em outubro de 2016, posou para as lentes outro fotógrafo, Lucas Gomes participando da campanha “outubro rosa”. Referente à campanha, a entrevistada relata a importância dela, mas também, o quão eficaz seria se ela fosse intensificada ao longo do ano.
 Paulinha Caetano posando para as lentes de Duran, em 2015 (Foto: Fernando Duran)


Ao fazer um balanço geral de sua vida, Paulinha Caetano, se diz “mutante” e que a cada dia que passa, irá lutar cada vez mais mas adverte a todos que não façam que nem ela, nunca escondam da família o que está passando. Nos minutos finais da entrevista, deixa talvez uma de suas frases mais marcantes, além dos sorrisos “aprendi ao longo da minha trajetória que não aproximamos ninguém pelo sofrimento”.

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